Análise · Inflação

Inflação em Portugal: o que os dados do INE de 2024 realmente mostram

A taxa agregada desceu para 2,3% em maio — mas dentro desse número vivem categorias com pressão muito acima da média.

Etiquetas de preços num supermercado português com iluminação quente

Quando o INE publicou os dados de inflação de maio de 2024, os títulos focaram-se na descida do índice geral para 2,3% em termos homólogos — o valor mais baixo desde 2021. O que ficou por dizer foi que a classe de “Habitação, água, eletricidade e combustíveis” registou ainda uma variação de 4,1%, e que os “Bens alimentares não transformados” subiram 3,8%. Para uma família portuguesa que gasta 35% do rendimento disponível em habitação e 18% em alimentação, o índice agregado subestima significativamente a pressão real sobre o orçamento doméstico. A metodologia do INE para o Índice de Preços no Consumidor (IPC) usa ponderadores baseados nos padrões de consumo médio nacionais, recolhidos pelo Inquérito às Despesas das Famílias de 2015-2016. Isso significa que o peso da habitação no cálculo reflete uma realidade de há quase uma década — anterior à escalada brutal dos preços do arrendamento entre 2021 e 2024 em Lisboa e Porto. Os preços do arrendamento privado aumentaram 30% em Portugal entre janeiro de 2021 e dezembro de 2023, segundo dados do Confidencial Imobiliário, mas esse impacto entra apenas parcialmente no IPC porque o índice mede custos de habitação própria (empréstimos e manutenção), não rendas de mercado. A inflação sentida pelas famílias arrendatárias — que representam 26% dos agregados portugueses, segundo os Censos 2021 — é estruturalmente mais alta do que o índice nacional sugere. Os dados existem para medir isso. O que falta, frequentemente, é o enquadramento para interpretá-los.

Quer receber a próxima análise quando sair?

A newsletter semanal da Netflowv chega todas as sextas-feiras com os dados económicos que mais importam.

Subscrever gratuitamente